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Sexta-feira, Abril 23, 2021
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Pavilhão Rosa Mota ou uma marca de cerveja?

Sempre me pareceu de mau gosto, e até muitas vezes parolo, atribuir nomes de pessoas vivas ao que quer que seja de morto — ruas, monumentos, equipamentos, etc. Haverá talvez excepções, quando se chamem Aristides de Sousa Mendes (a ele ninguém homenageia nem morto…) ou semelhante. E há casos, como o de Rosa Mota, em que apetece condescender um bocadinho: grande campeã, mas terra-a-terra e inclusive com algum empenhamento cívico e social, e uma genuína maneira de ser e falar «à Porto», que se revê nela como poucas vezes sucede. Ainda assim, continua a parecer de mau gosto.

O que não significa que se deva dar ao ex-Pavilhão dos Desportos, e já quase ex-Pavilhão Rosa Mota, o nome de uma marca de cerveja.

Suponho, aliás, que as justíssimas críticas a um executivo municipal que trata a cidade como se toda ela estivesse à venda ainda pecaram por escassas, passando ao largo do principal.

É que não está escrito em lado nenhum de nenhuma lei administrativa que o concessionário de um equipamento municipal passe, ipso facto, a deter o direito de lhe alterar o nome. É como se há uns anos a IURD, em vez de comprar o Coliseu (todos se lembrarão com certeza de um operático Pedro Abrunhosa auto-acorrentado), o arrendasse e lhe mudasse depois o nome para Igreja-Universal-do-Reino-de-Deus-vai-buscá-la-ó-Passos-Manuel-seu-ímpio-setembrista. Convenhamos…

Falando em Setembro, tem mesmo alguma graça uma Câmara que se faz de coitadinha, quando, segundo constou na altura, terá andado a multar o concessionário por cada dia de atraso nas obras, prejudicando com isso o estaleiro dos livros, perdão, a Feira do Livro.

Quem manda é a Câmara, não é o concessionário. E a mudança de nome dever-se-á decerto a qualquer coisa como isto: o sponsor (a Super Bock) propõe ao concessionário, ou vice-versa, um patrocínio reforçadíssimo caso possa assumir o próprio nome do pavilhão; o concessionário reúne com a Câmara; e a Câmara aceita. A única coisa a investigar, aqui, é quando isto se passou: se logo de início, se num tempo posterior. E, já agora, se alguém com funções públicas terá recebido algum pagamento que não devia por tão prestimosos serviços à cervejeira. Embora o interesse de tal investigação seja quase académico… Sim, o Porto está à venda.

Falando em Coliseu, “Arena” era o palco em terra batida no Coliseu de Roma onde os condenados gladiadores se matavam uns aos outros e os cristãos se expunham para chacina às feras, espectáculo cujo precedente, segundo rezam as crónicas, terá sido a condenação de um célebre bandido à morte «ad bestiam» (amarrado para os animais o devorarem facilmente) decretada pelo primeiro imperador, Octávio.

Repúblicas que passam a impérios dão sempre asneira. Mas o novo nome do pavilhão não deixa de ser uma interessante metáfora dos tempos que correm na cidade.

Gonçalo Ribeiro

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