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Quarta-feira, Abril 8, 2020
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Da solidariedade e outras empatias

Assistimos cada vez mais a agressões de grupos sobre pessoas por vezes por razões raciais, outras por razões de pertença de grupo, outras aparentemente sem racionalidade alguma. Lembrei-me de um artigo que escrevi há um ano e que transcrevo de seguida:

Um amigo publicou no FB um vídeo em que se via um adolescente a ser espancado por seguranças. Os comentários não faltaram: «covardia», «nojo», «sem perdão». Quem tiver olhado atentamente até ao fim terá visto, mesmo ao lado, uma paragem de autocarro em que se encontravam várias pessoas, uma das quais filmando também a cena. O adolescente ficou claramente magoado. Contudo, ninguém chamou a polícia ou por qualquer ajuda, nem ligou para um serviço de urgência médica. Ninguém se aproximou do rapaz, mesmo depois de os seus agressores terem partido, para saber se precisava de auxílio ou tão-só para confortá-lo.

Embora já tenha intervindo em situações de agressão, não creio que o fizesse se tivesse pela frente dois grandalhões de matraca em riste. A minha coragem física é diminuta. Não atiro, pois, às pessoas que nada fazem, nem a primeira pedra nem nenhuma que se lhe siga.

Concordemos, porém, que chamar a polícia e a assistência médica, interessar-se pela sorte do agredido, necessita apenas de alguma atenção aos que nos passam ao lado.

O meu amigo diz que se trata de indiferença, de falta de empatia e extrapola para uma falta de solidariedade que considera como grandemente responsável por muitos massacres e holocaustos. Mas creio que é mais do que isso. Solidários podemos até ser em casa, por exemplo, assinando uma qualquer petição na internet, contribuindo para uma associção de beneficência, etc. Não precisamos de sair do sofá. Está bem, mas não chega.

Do que precisamos é de compaixão. A compaixão faz-nos actuar. Porque nos põe na pele do outro, com o outro, incondicionalmente até. A compaixão estende-se ao inimigo. Creio que é esse o significado da máxima cristã «dar a outra face». Dar a outra face não quer dizer levar pancada e oferecer-se para levar mais. Quer dizer ter compaixão do que leva como se fôssemos nós mesmos e vir em seu socorro; e ter compaixão daquele que dá como se fôssemos nós mesmos (e somo-lo muitas vezes), cuja falta lhe deve ser apontada justamente – isto é, condenada pela lei, mas humanamente compreendida, pois todos nós somos capazes de infâmias maiores ou menores. Neste caso, a compaixão pelos agressores teria sido, por exemplo, impedi-los de maltratar o menino. A solidariedade não trava holocaustos, ela parece-se muito com as boas intenções e, como sabemos, de boas intenções está o inferno cheio.

Graça Jacinto

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