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Domingo, Abril 18, 2021
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Aqui tira-se o chapéu aos artistas e artesãos de todo o tipo

Em breve voltaremos com as nossas secções Artes e etc. e o cantinho para os mais novos. Entretanto publicamos aqui uma de três histórias curtas.

Cansaço

Na orla nordeste da cidade vivia um homem só. Reformado, arrumava a casa, saía para o almoço numa pequena tasca onde D. Aldina apresentava todos os dias a alguns comensais um prato caseiro da sua lavra, e de tarde, depois de uma sesta reparadora, às 3 em ponto, sentava-se, acendia o computador e abria a pasta intitulada A Minha Vida.

Aos oitenta e cinco anos, cansava-se facilmente e o ecrã fazia os seus olhos chorarem ao fim de pouco tempo. Decidiu, pois, contratar uma secretária que lhe arrumasse um pouco a casa, mas principalmente lhe pusesse em ordem a escrita. Uma secretária, não um secretário, porque uma presença feminina seria mais agradável ao seu coração velho e doente. Eram homens todos os seus amigos, e eram poucos, dois ou três que haviam sobrevivido, tal como ele, persistentemente, às doenças de coração, ao cancro da próstata, ao mau funcionamento dos rins e até às gripes.

A única voz feminina que ouvia mais longamente era a de Margarida, sua única filha. Mas Margarida morava longe e vinha apenas uma tarde por semana, em geral ao sábado, e a conversa versava a saúde dele, as preocupações dela com os filhos e as ternurentas travessuras dos netos. Por vezes, o marido dela e um ou outro dos netos acompanhavam-na. Nunca fora apreciador do genro, um arrivista que se metera na política porque não sabia fazer mais nada e pontificava sobre tudo e o além, e detestava com intenção os netos e bisnetos oriundos daquela parelha.

Uma secretária não muito jovem, séria no trabalho e responsável, mas pessoa de boa disposição, traria um pouco de vida à sua vida já faltosa. Pôs um anúncio no jornal e entrevistou várias candidatas. Nenhuma lhe conveio porque, tendo sido músico, exigia que a voz que iria ouvir quase diariamente tivesse harmonias bem precisas.

Estava a tomar o pequeno-almoço quando a campainha soou. A essa hora, só o porteiro o incomodaria, mesmo assim teria de ser coisa inadiável, pois o Santos sabia do seu horror a comunicar pela manhã. Coisa inadiável, então, ora bolas, espero que não haja fogo no prédio. Olhou pelo óculo e abriu a porta a uma mulher que em tudo correspondia ao que desejava. Com a exacta tonalidade de voz que lhe acariciou o ouvir, ela disse «bom dia, venho rever a sua vida. É tempo». Convidou-a a entrar como se fosse uma amante desejada. Levou-a consigo para o quarto, feliz, deitou-se com ela na cama. A morte santa levou-o.

Alice P.

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