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Sexta-feira, Janeiro 22, 2021
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Racismo e atitudes

Muito já foi dito sobre a atitude de Marega que eu aprovei de todo o coração. Faço minhas as justíssimas palavras do jornalista Bento Rodrigues que abriu o seu jornal na SIC do seguinte modo: «Começamos este jornal com o rosto do carácter, da coragem e da lucidez. A coragem de ser o primeiro futebolista em Portugal e um dos poucos no mundo a abandonar um jogo depois de ouvir insultos racistas. O carácter de desafiar os que o tentaram travar sem perceberem que já não era sobre um jogo de futebol, nem sobre o resultado, mas sobre o que nos define enquanto civilização. A lucidez de saber que este é o momento que define um homem, que esta atitude vai muito para lá de um estádio; que tem impacto nas ruas, nos bairros, nas vidas dos que sofrem insultos racistas todos os dias.»

Dado tudo o que já se comentou sobre o assunto, é doutra atitude que quero falar. A atitude de Blessing Lumueno que, entrevistado igualmente na Sic, falou da necessidade de educar. Educar, educar, educar, disse. Claro que sim, temos de educar. O problema é saber quem educa e, por enquanto, há aí muito pai e muita mãe, etc., que sendo eles próprios preconceituosos educarão os pequenos no preconceito.

De modo algum concordo com o que Lumueno disse sobre Marega. Parece-me a posição de uma pessoa que se habituou ao insulto e o interiorizou. Toca de sermos bem educadinhos para mostrar que somos tão bons ou melhor que eles e ganharmos-lhe o respeito. Ora, o respeito de si próprio não pode depender do respeito dos outros. Lumueno diz claramente que Marega teve uma reacção de quem não está habituado a essa experiência. Bendito Marega que não se habituou. Bom seria que ninguém se habituasse. Para tudo é preciso a coragem de Marega, que é uma lição não apenas para aas pessoas objecto de racismo, mas para todas as pessoas socialmente discriminadas.

Toni Morrison, grande escritora negra americana e prémio Nobel, abandonava a mesa, ou o local, ou a festa onde alguém estivesse a fazer comentários racistas, dizendo que jamais poderia aceitar a convivência com essas pessoas. E isto deixando familiares e amigos em situações desagradáveis.

Marcar posição não é comer e calar e depois vir falar de educação. Não podemos educar ninguém sem primeiro nos erguermos contra a ignorância e o preconceito. Se as pessoas objecto de discriminação racial ou outra se erguerem contra este tipo de atitudes (inclusivé abandonando os seus postos de trabalho, as mesas de família ou amigos onde algum conviva se atreva à supremacia, exigindo que cessem as piadas, os insultos, a discriminação), será muito menos fácil para os opressores espalharem as suas ideias.

Pessoalmente, não quero educar esta gente, quero que respeitem a lei e as regras de convivência civilizada. Não quero polícias do pensamento, quero justiça social. Não foi a posição de Blessing Lumueno que deu chama a este debate, foi a atitude de Marega. E Marega disse NÃO.

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