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Sexta-feira, Julho 10, 2020
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Sílvia Fonseca Silva – Entrevista

A nossa primeira entrevistada nasceu em Santa Marta de Penaguião há 42 anos, é licencida em Português e Inglês pela UTAD, foi professora, guia turística, relações públicas, presidente da CPCJ, impulsionadora associativa e é actualmente vice-presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião. Sílvia Fonseca Silva é a única mulher a ocupar um lugar político de direcção neste concelho e fomos falar com ela para tentar perceber como isso aconteceu, porque não há mais mulheres envolvidas na vida política penaguiense, como vê a sua vida pessoal, quais os seus sonhos e projectos.

A vida pública

PM: Nesta zona não há muitas mulheres a fazer política nem em lugares de destaque. Como é que se chega aqui? Como é que isto começou para si?

SFS: As oportunidades não são muitas e também é preciso ter um bocadinho de sorte. Nós sabemos que há muita gente com qualidade, muitas mulheres, muitas jovens. Aliás acho que a nossa tempera de mulheres do norte, mulheres do Douro, tem uma característica muito forte de trabalho. Somos capazes de fazer muita coisa e começamos desde a raiz. A minha mãe teve 5 filhos, trabalhou sempre na vinha, tomou conta des todos. Ainda hoje eu fico atrapalhada com as máquinas de roupa de 3 e a minha mãe lavava de 5 homens, à mão. Como a minha mãe há milhares de mulheres por este Douro. Mulheres que trabalhavam em casa, nas vinhas, tomavam conta dos maridos, dos filhos, eram incansáveis. Nós temos essa fortaleza. Depois é preciso surgir a oportunidade.

PM: Como é que essas mulheres tão capazes não têm oportunidade? O que é que as impede de se posicionarem noutros lugares?

SFS: Acredito que há aqui duas questões. Uma é a mentalidade, a cultura de quem está, de quem gere, de abrir a oportunidade às mulheres. Mas é justo dizer que também há da nossa parte um comodismo, uma habituação. Hoje já está mais aberto, eu ser vice-presidente da Câmara não é nada de extraordinário, já não é uma impossibilidade. Quando agora fazemos as listas, estou falar em termos políticos, já há uma obrigação, inclusive legal, de encaixar mulheres. E temos muitas mulheres que dizem que não pelas mais diversas razões, umas válidas outras não, mas são razões culturais nossas, das mulheres, culpa nossa.

PM: As razões culturais das mulheres são as que lhes foram incutidas por uma cultura masculina…

SFS: Vamos ser honestas, isto é 50/50. Já tivemos casos de senhoras que foram convidadas para pertencer a uma lista e que tinham o apoio dos maridos e elas não quiseram, também há aqui a vontade delas.

No meu caso em particular, eu gosto muito de pessoas e tenho a mania de sonhar. Ainda ontem dei comigo a sonhar e pensei; aqui está a antiga Sílvia, anda-me a fazer falta sonhar. Eu comecei a dar catequese muito cedo. Santa Marta tinha bastante juventude (a minha profissão é professora, eu gosto de ensinar, de partilhar, de estar no meio de jovens) Em determinada altura, aquilo não me chegava e comecei a formar um grupo de jovens. Tinha 17 anos e estava longe de pensar na política. Os meus pais tinham um quadrante político desde sempre, eram muito aguerridos, era aquela velha questão: de clube de futebol ou religião, de partido e marido não se muda. Eram do PS. Eram muito fiéis, mas eu nunca fui JS, por exemplo, nunca estive ligada à política directamente.

O que nos leva a outra questão que é que os meus pais, que eu não trocava por nenhuns, eram duma classe muito humilde. E portanto porque é que a filha do Porfírio e da Fernanda… os meus pais não tinham dinheiro, não tinham riqueza, mas tinham uma coisa fantástica, uma alma muito grande que me passaram e ensinaram a mim e aos meus irmãos que o céu é o limite. E isso ninguém nos tirou.

Então fundei os Golfinhos da Paz e tivemos muito êxito, porque além do cunho religioso, criámos uma associação com uma dinâmica muito boa. Estive dez anos à frente dessa associação

Ora, quem estava no poder na altura era o Francisco Ribeiro. Achou que eu era um bom elemento, provavelmente pelas famílias com que eu lidava, pelas pessoas que me rodeavam e pela minha dinâmica, e convidou-me em 2001 para fazer parte da lista à Câmara e fui logo eleita. Eu era 5ª na lista, mas o 4º elemento que também era candidato à Junta optou pela junta. Portanto eu subi por acidente. É sorte, o que também é preciso para tudo nesta vida. Na altura o Francisco Ribeiro chamou-me a perguntar-me se eu tinha noção (do que isso significava) e eu respondi-lhe que estando na lista, isto podia acontecer. Não, isto não estava na cabeça de niguém. Eu ia, minha gente, mas chegar ao patamar era outra questão. E depois aconteceu. E aí, sim, já não tem a ver com sorte, aí somos nós. Eu acho que a partir daí, conquistei, tentei, não desperdicei a oportunidade.

Já fui grávida para o cargo do meu filho mais velho, mas não baixei os braços. Houve uma altura em que fiz uma pausa. O meu lugar foi para o actual presidente da Câmara. Estive fora da Câmara à roda de oito meses em 2006-2007. Durante esse tempo todo estive sem receber porque era vereadora, mas não tinha pelouros. Entretanto saiu um projecto sobre espaços públicos na internet e fui convidada para fazer parte dele e como é óbvio fui trabalhar a recibos verdes. E mantive-me assim durante muito tempo aqui na Câmara. Entre 2005 e 2009 estive sem funções. Fui sempre eleita vereadora, fui vice-presidente em 2011 e 2012 e agora neste mandato e com este presidente também.

PM: E da vice-presidência vai para onde?

SFS: Não sei. Uma coisa que nunca fiz foi esse tipo de planos.

PM: Mas vai continuar na política…

SFS: Para já, não tenho razões para sair. Confesso que de há uns anos a esta parte houve uma degradação da imagem do político. Nacional já era comum, mas agora passou a existir também nas zonas mais rurais e mais pequenas. Confunde-se um bocadinho a vida profissional dos políticos com a vida pessoal. Toda a gente à nossa volta leva por tabela. As redes sociais que são um excelente instrumento, são por vezes utilizadas da pior forma. É preciso ter, com os nossos, os pés bem assentes e conseguir transmitir-lhes a confiança, se não, é uma situação complicada.

Os meus filhos sempre estudaram cá e hoje em dia compreendo melhor um bocadinho os políticos que optaram por não ter cá os filhos a estudar para eles não serem sujeitos a bocas e bullying sobre o pai, a mãe, etc. Não é correcto.

Também não será correcto eu, sabendo que a nossa escola tem poucos meninos, estar a tirar de lá os meus. Mas compreendo quem opta por isso porque de certa forma está a protegê-los. Eu como acho que na vida a gente também tem que aprender a ser forte, temos de levar com os nãos e com os desagrados e com a frustração para ganharmos forças – os meus filhos chegam por vezes a casa a chorar ou arreliados, outras vezes levaram com um murro por causa duma resposta, mas com tudo isso têm-se safado bem e vão ganhando algumas defesas.

Tudo aquilo que a vida me der, quero, não passo por cima de ninguém. O que tem de ser nosso, há-de cá vir ter desde que a gente faça por isso, não é ficar ali sentada à espera que chova. Mas se tivermos trabalho, dedicação, empenhamento, o que tiver que ser naturalmente acaba por acontecer. Portanto, daqui para a frente, não sei. Não baixo os braços, quando gosto e enquanto gostar, faço. Se algum dia as coisas correrem menos bem e não me sentir bem onde estou, viro as costas ao poder com muita facilidade.

Os sonhos

PM: Além disto, que eu sei que é um trabalho muito consumidor de tempo, continua com interesses noutras coisas?

SFS: Sim, muitas. Olhe, nós temos por aqui muitas quintas. O meu sonho sempre foi ter uma escola inclusiva. Eu estive na presidência da CPCJ e isso ainda aumentou mais este meu gosto. Adorava ter um espaço que fosse uma escola, mas que acolhesse famílias inteiras. Nós trabalhamos com as crianças, mas o problema das crianças são os pais. Quando não trabalhamos com os pais, com a família, aquilo que trabalhamos com as crianças perde-se.

A criança está pouco tempo nas instituições, na escola, está muito mais tempo em casa, E aquilo que tentamos fazer, se não fizermos também com os adultos, acaba por se perder. Então imagine que tem um bom espaço, que temos alguns pais com problemas de dependência, alcoólica e não só. Podíamos trabalhar os pais na dependência e eles trabalharem lá na vinha, nas culturas, em tudo aquilo de que as pessoas precisassem para subsistir e trabalharmos os meninos. Os pais trabalhavam para economia da quinta e os meninos tinham todo o apoio psicológico, motor, educativo. Aquilo seria uma escola de transição, de recuperação. Haverá inclusivamente famílias com crianças com deficiências, com dificuldades motoras que não têm resposta que poderiam ser albergadas sempre (as crianças). Mas a ideia é trabalhar a família no seu todo e quando a família estivesse já capaz de independência, colocá-la num espaço dito normal. Claro que para isto é preciso dinheiro, mas não fazer dessa instituição um local de lucro, porque isso dá sempre confusão. Claro que quem está a trabalhar tem de ter ordenados, mas haveria certamente crianças que não poderiam regressar à noite com os pais a casa. Como eu não sou a favor de retirar crianças a pais nenhuns, a criança poderia dormir lá e os pais iam e regressavam. Isso implica gente a ficar lá de noite e essas pessoas teriam de ser ressarcidas do seu trabalho. Mas no que diz respeito aos quadros de gerência, aos lugares e aos quadros, isso não poderia ser muito pesado.

A família

O meu outro projecto é um projecto contínuo que é a minha família. Gosto muito de ser mãe, este já é o quarto, não gosto nada de andar grávida, não publiquem isto (risos), eu não gosto de andar grávida, é uma chatice, mas gosto tanto de os ter, de ser mãe, que ando nove meses contrariada, mal-disposta e rezingona , mas ando (mais risos).

PM: E depois tem o marido?

SFS: Tenho o meu companheiro porque ainda não somos casados.

PM: Companheiro é um nome bonito. Seja marido, seja o que for é um companheiro.

SFS: Tem razão.

PM: Ele apoia-a na sua vida pública e privada? Também está ligado à política?

SFS: Sim a tudo. Apoia-me e é um dos elementos da junta de freguesia aqui da mega freguesia. Eu conheço o Afonso desde sempre, fizemos parte dos mesmos grupos de jovens, é daqueles encontros simpáticos na vida e de vez em quando olha-se para o lado e começamos a olhar de uma maneira diferente. Eu via o Afonso como um menino porque ele é 6 anos mais novo do que eu, convivi sempre com ele, é uma pessoa extraordinária e sempre gostei imenso dele. Em casa é o Afonso, toda a gente o conhece. Ele ainda é primo dos meus filhos por afinidade.

PM: Isso quer dizer que os seus filhos são de um anterior casamento.

SFS: Sim, eu namorei e estive casada 20 anos, entre os 14 e os 34, e tive 3 filhos nesse relacionamento. O pai dos meus filhos é uma pessoa com quem me dou muito bem.

PM: Aqui nesta região, uma pessoa (com vida pública) não casar…

SFS: Quer saber a melhor? Isso é como em tudo. Eu namorei e ao fim de 10 anos engravidei e não estava casada. Foi o fim do mundo em Santa Marta. Os padres nem sequer baptizaram o meu filho. Casei já com 8 meses de gravidez. Fiz casamento e baptizado tudo junto. Isto há dezassete anos atrás foi um escândalo. Agora não, agora é uma coisa corriqueira. Não tem ideia do que a minha mãe sofreu.

PM: Nas gerações anteriores aos meu avós havia muita gente que não casava, juntava-se, era comum, esse espécie de moralismo chegou tarde, vem do tempo do Salazar, provavelmente com aquela história do Deus, Pátria, Família. E essa moral ficou durante muito tempo.

SFS: Mas eu tive muita sorte, porque eu tenho 4 irmãos e não tive uma única má palavra da minha família que foi, como sempre, o meu grande abrigo.

PM: Tem tempo para ter tempos livres? Como é que se organiza?

SFS: Adoro dormir (risos). A Sílvia, ainda bem que está a falar comigo como Sílvia e não como vice-presidente da Câmara, a Sílvia gosta muito de dormir, e eu admito-o. Dormir é um passatempo que eu acolho. Agora a sério, gosto muito de fazer desporto, estou desejosa de que a Maria nasça para voltar a fazer umas boas caminhadas. E adoro dançar, dançar é a minha perdição. O Afonso é meu companheiro de dança há anos, fizemos cursos de dança e estou morta por retomar isso. E ler e ver filmes, eu sou uma autêntica devorador de livros e filmes. Vou frequentemente ao cinema. Para não falar dum bom vinho tinto e dos amigos. Para isso, por mais atrapalhada que esteja a minha vida, há sempre tempo, eu faço lanches, jantares, a minha casa nunca está vazia.

PM: Disse há bocado que antigamente as mulheres tinham tudo para fazer, as vinhas, a casa, tratar dos filhos, do marido. Agora já não é tanto assim. Como é que o Afonso funciona no meio disso tudo?

SFS: O Afonso não ajuda, o Afonso faz. Se eu chegar a casa depois dele, ele está a cozinhar, naturalmente, é normal. A geração dele é muito diferente, é uma geração muito fixe.

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