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Sexta-feira, Julho 10, 2020
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Bolachas Maria, Comunidade e Papel higiénico

Há uns anos trabalhava em contexto hospitalar. Um dia, enquanto passava a comer uma bolacha , num corredor de um hospital, fixei os olhos num bebé com menos de 2 anos, acomodado na anca da mãe que esperava ser atendida, e que, também ele, não parava de fixar os olhos em mim. Meti-me, obviamente, com o miúdo com cutxi-cutxis, enquanto perguntava à mãe como se chamava e a idade dele. Era para ser uma micro-interação, daquelas que temos tantas vezes e de que nunca mais nos lembramos.

O bebé tentava, furiosamente, roubar-me a bolacha da mão e eu, privilegiada e a leste do inferno, ainda o chamei de glutão, gulosão e coisas do género, inquirindo a mãe se podia oferecer à criança bolachas, uma vez que trazia o resto do pacote na mala.

A primeira bolacha foi comida com muita, mas muita, sofreguidão. Uma gula que não era gula, uma fome a que nunca tinha assistido, de aflição, de compulsão, de medo de perder o recurso. Tinha menos de dois anos, aquela criança que não era muito sorridente, mas que não conseguia deixar de fixar os olhos em mim, mesmo perante as bolachas maria que comia de enfiada.

Perguntei à mãe se estava tudo bem. Encolheu os ombros e disse que sim. Convidei-os a ficarem com o resto do pacote de bolacha e segui corredor fora. Olhei para trás, o bebé de cabeça virada na minha direção, sem choro sem riso, a ver-me desaparecer ao longe. Os olhos de que nunca me esquecerei, negros, inexpressivos, doridos. Olhos doridos num bebé.

Voltei atrás sob qualquer pretexto que não me lembro bem e fixei eu os olhos na mãe: o bebé está com fome? Que sim. O bebé estava com fome. Só se alimentava com as papas que lhe davam, que misturava com água. Falei-lhe no Banco Alimentar e em como a poderia referenciar. Que não. Que não. Os bebé continuava, alheio à nossa conversa, a devorar as bolachas maria.

Pedi-lhe o nome, a morada. Só para si? Só para mim. Quero lá ir-lhe entregar um saco de comida. Deu-ma, a medo, mas deu-ma.

Falei com uma amiga evangélica e fomos buscar um saco de avio de bens alimentares à “despensa do amor” da sua igreja. Complementei com compras que fiz, especialmente para o bebé. Eram uns três sacos grandes de supermercado cheios de bens alimentares. No dia seguinte fomos lá, as duas, à morada que eu guardara na mala. Dei-lhe um toque no telemóvel e ela desceu. Não nos convidou para subir, trazia o bebé à anca. “Não precisa de ajuda para levar os sacos?” Não. Obrigada, obrigada.

Obrigada.

Três dias depois uma chamada: a mãe perguntava-me, constrangida, se tinha mais comida. Como assim? Comeram a comida toda? Que sim.

Torci o nariz. Não era possível. Seria aquela mulher de confiança? Estaria a alimentar devidamente a criança? Porque carga de água não tinha sabido gerir um avio que dava para um mês? Estaria aproveitar-se de mim?

Não me conseguia desligar dos olhos fixos do bebé em mim. És uma parva- diziam-me. Não vês que ela se está a aproveitar de ti? Os olhos do bebé. Os olhos do bebé a ecoarem em mim.

Juntei uma trupe de gente especial e comprámos, em vaquinha, um cabaz gigante de bens alimentares e bens essenciais. Maior. Este dava, seguramente, para um mês. Levei bens que se poderiam rentabilizar mais. Novamente o toque à porta do prédio (ela não me tinha dado o andar em que vivia). Ela a descer e a tentar equilibrar os sacos e a criança. Não pode subir, não pode subir. Desculpe, mas se não me deixar ajudá-la, não volto a poder trazer comida. Tem que confiar em mim. Eu quero ajudar-vos.

O que assisti, num quinto andar de subúrbio, é impossível de relatar. Uma dezena de mulheres, mães, a coabitarem num T2 com os seus filhos bebés ou muito pequenos, todos com uma doença ou deficiência. Cheirava a doença, a falta de água, não havia luz e no chão acumulavam-se esteiras em vez de colchões, onde algumas dormiam por turnos. Olharam-me, todas sérias e assustadas, quando me viram entrar. Tinham sido trazidas de um país estrangeiro com a promessa da cura dos filhos mas o preço a pagar era demasiado caro. Demasiado caro.

E foi aí que eu percebi. Mas, mas, os sacos que eu lhe envio são para si e para o bebé, entende? Se você distribui por toda a gente fica você com fome, fica o bebé com fome. A comida não dura nem chega para os dias todos, acaba num instante. Entende? Entende?

São todos filhos de todas. Somos todas mães de todos. No meu país, pobre, a comida é para todos. E quando não há comida também não há para ninguém.

Estas mulheres – que hoje têm vidas melhores e mais dignas – ensinaram-me, naquele dia, tudo o que é importante saber sobre humanidade, generosidade, partilha e, especialmente, sentido de comunidade.

As prateleiras dos supermercados, na Europa evoluída e progressista, esvaziam-se. As pessoas açambarcam o maior número de massas, arroz e latas de conserva porque os recursos podem ser, pela primeira vez, escassos. Lutam por papel higiénico face à hipótese de uma epidemia.

E eu penso nos olhos fixos daquele bebé, que revisito frequentemente, e que quem vive no terceiro mundo, se calhar, somos nós.

Liliana

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